quinta-feira, 27 de setembro de 2012

003 - Nós não somos nossos corpos

Há alguns anos, quando estudava medicina e tive os meus primeiros contatos com anatomia, fiquei espantado ao ver na sala de dissecção os corpos das pessoas parcialmente abertas com as vísceras, músculos e estruturas nervosas e vasculares expostas. Minha visão quase que imediatamente se voltou para os rostos e o aspecto externo de cada uma delas. Afinal de contas, eram essas as fronteiras que até então me permitiam reconhecer o aspecto fisionômico de um ser humano. Fiquei chocado. O cheiro penetrante do formol fazia os meus olhos arderem, as peles das pessoas estavam curtidas como couro e todas com tons de marrom que simplesmente não permitiam nem definir quais eram as raças. As cabeças estavam raspadas e o contraste das vísceras expostas quase toldavam a nossa percepção do sexo delas. Vi que um dos cadáveres era uma mulher não por causa da genitália mas porque ao olhar os pés vi que suas unhas estavam cuidadosamente aparadas e pintadas com esmalte rosa que o formol não havia dissolvido.


Mas em todos aqueles corpos havia ainda algo em comum muito mais profundo e mais impressionante que levava todos os alunos a um silêncio respeitoso. Havia uma intraduzível diferença entre entre nós estudantes e instrutores e os corpos silentes e imóveis nas mesas. Não era a evidente percepção fisiológica de morte que nos causava aquela sensação. O que nos chamava a atenção era justamente o que estava em nós mas não estava neles - a furtiva ausência de vida, de ânima, de energia vital – vida que eu podia ver num galho de planta no vaso do corredor, num inseto se esgueirando no canto da sala, ou numa aranha imóvel na teia sobre o forro do teto. Todos nós, seres vivos, por mais diferente que fossêmos em forma e auto-percepção, estávamos impregnados de algo que fazia de todos nós parte de algo muito maior e que me indaguei se não estaria espalhado por todo o Universo.

Muito anos antes de sequer saber que a palavra Advaita existia, tomei conhecimento de que o que quer que nos definisse não era o nosso corpo físico. Nós definitivamente não éramos os corpos físicos que pensávamos que fôssemos. Levei muito anos para entender, depois, de forma similar, que também não éramos os nossos pensamentos e não éramos nossas emoções. Décadas mais tarde, li as palavras de Jean Klein em "Be who you are" – nós estamos completamente inscientes de nossa verdadeira natureza porque identificamos quem nós somos, com os nossos corpos, as nossas emoções e os nossos pensamentos, perdendo assim a visão do nosso centro permanente, que é pura consciência.

Martius de Oliveira

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