Os textos que se seguirão serão uma tentativa de entender a natureza de quem verdadeiramente somos, assim como de tudo o que está a nossa volta. Ainda assim, não importa o quanto queiramos expressar em palavras o que nós entendemos como verdade, porque ela mesma é, em última instância, incognoscível, incompreensível à mente e portanto indescritível em palavras. O que o Advaita e tantas outras filosofias e religiões se esforçam por fazer é conduzir o leitor a níveis cada vez maiores de apreciação intelectual ou diria até mesmo vibracional da verdade, afeitos às suas tradições ou princípios morais ou religiosos, inclusive utilizando como recurso de aprendizado a refutação ou demolição das bases de racionalização utilizados em etapas anteriores. Afinal de contas, muitas "verdades" que nos eram passadas através das tradições de geração à geração provaram ser em muitos casos nada mais do que mito ou superstição. O Advaita em si tenta nos ajudar a perceber que a verdade está, em última instância, muito além da mente.
Eu aprendi que o Advaita Vedanta é uma filosofia que foi sistematizada na Ìndia em torno do séc. VIII DC por um estudioso de nome Adi Shankara mas, que de fato, a essência desse ensinamento já existe há muito mais tempo, baseada em materiais que havia nos Upanishads. Os Upanishads são parte de textos indianos sagrados denominados Vedas, escritos por volta de 1500 AC. Algumas evidências, no entanto, sugerem que os ensinamentos datam de 6000 AC, em uma linguagem escrita denominada Devanagri, que utilizava caracteres em sânscrito. Os Upanishads são encontrados nas seções finais dos Vedas e são chamados de Vedanta. Eles contém as bases filosóficas das práticas das quais o Advaita deriva. As palavras utilizadas em inglês a partir do livro que estou lendo - "Back to the Truth – 5000 years of Advaita" - do autor Dennis Waite, têm que ser entendidas e adaptadas à língua portuguesa, porém trabalho maior foi o do autor que domina o Advaita, a língua sânscrito e a língua inglesa e que descreve que centenas de palavras em sânscrito não possuem equivalente em nossas línguas porque muitos conceitos da filosofia tradicional não encontram similares no Ocidente. Como ele mesmo coloca: "as palavras são diretamente originárias de uma sociedade que diferia drasticamente da nossa".
Advaita, como já foi dito, é uma filosofia não-dualística, o que significa que na realidade não há "dois" de coisa alguma. A princípio, esse conceito não tem nenhum significado para a maior parte de nós e será este conceito de não-dualidade que tentarei explorar, estudar e fortuitamente aprender nos textos futuros.
O problema maior, de que a realidade não pode ser descrita em qualquer sentido, de certo modo, leva os intervenientes, instrutores ou mestres de Advaita a adotarem uma abordagem oblíqua, utilizando histórias e metáforas, lançando mão de "verdades parciais" como amparos ou suportes para conduzir os passos do principiante ao longo da trilha de entendimento. Muito naturalmente, em decorrência disso, o que pode parecer como uma verdade útil e lógica para uns torna-se uma verdade parcial e sem serventia para outros. Há ainda outros aspectos a serem relevados no estudo do Advaita e praticamente de qualquer assunto. Existem pessoas que apreciam a análise lógica e intelectual, ao passo que outras necessitam de orientação prática e asserções solidárias às suas próprias crenças. O que se torna necessário, nesses casos, é um instrutor cujas palavras entrem em ressonância com algum condicionamento mental prévio do instruído.
Advaita diz respeito essencialmente a descobrirmos quem nós somos. Não visa estabelecer o bem-estar de quem pensamos ser. O que será discutido daqui para frente não visa o auto-aperfeiçoamento (já que o Si é perfeito e completo e é uno com o Absoluto). Em verdade, o mundo e o nosso aparente papel nele pouca relevância têm nas discussões que serão abertas. A linguagem, ainda que seja utilizada com o máximo de cuidado, revelar-se-á elusivamente dualística, pois conceitua, define, destaca, distingue e classifica tanto o que é abstrato quanto o que é material. Mas não há como evitar isto e é por isso que prosseguiremos...
Martius de Oliveira
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