sábado, 6 de outubro de 2012

008 - Carma

Carma

Carma é uma palavra em Sânscrito que pode ter vários significado como ação, ato, rito, trabalho, resultado.

Swami Nikhilananda disse que o seu uso em Vedanta significa o destino forjado por alguém em uma encarnação passada ou presente: o armazenamento de tendências, impulsos, características e hábitos, os quais determinam a futura corporalização e ambiente de nascimento.

Dennis Waite, em seu livro "Back to the Truth – 5000 anos de Advaita" diz não exatamente com essas palavras que o carma em si refere-se à teoria ou princípio, segundo o qual nossas ações têm consequências para nós no futuro a menos que elas sejam realizadas de uma maneira totalmente não-passional. Nós tendemos a agir de modos habituais de acordo com a nossa educação em casa, na escola, etc, ou mais particularmente de como nós nos comportamos no passado. Essas tendências de se comportar de uma certa maneira são chamadas de Vásanas em Sânscrito. Essas tendências ou Vásanas existem porque havíamos deixado impressões mentais em nossas vidas pregressas. Essas impressões mentais são denominadas Sâmskaras. Assim, nós podemos dizer de uma maneira limitada que determinados Sâmskaras (impressões mentais) em uma vida nos causarão Vásanas (tendências ou propensões) em outra vida que por sua vez irão influenciar no modos particulares como agiremos.

Swami Chinmayananda vai mais adiante :

"Nós explicamos anteriormente como a ignorância espiritual se expressa no nível intelectual, como desejos, que novamente, na zona mental, manifestam-se como pensamentos, e como estes pensamentos coloridos por nossas tendências mentais manifestam-se, como ações no mundo exterior. Onde os pensamentos forem nobres, ações nobres resultaram, onde os pensamentos são obtusos e animalescos, as ações geradas terão uma motivação correspondentemente viciosa e cruel. Assim, as projeções da mente no mundo exterior são de fato uma cristalização dos Vásanas mentais sobre os objetos do mundo exterior e se constituem em ações. Onde houver uma mente, ações serão perpetradas. Essas ações são geradas pela mente, fortalecidas na mente e em última instância executadas pela mente Mas o indivíduo, devido a sua falsa identificação com sua própria mente, tem a falsa noção de que ele é o autor e o executor da ação. Este ego-arrogantemente-ativo naturalmente começa a sentir anseios para ter sucesso e um apego ardente pelo resultado de suas ações."

Karl Renz usa a metáfora da roda-gigante. Nós nos sentamos na roda-gigante e pensamos que de fato somos os responsáveis por conduzi-la. Enquanto este movimento da roda ocorre sucessivas vezes o ego sofre amadurecimento. Em um certo ponto do ciclo, ele triunfantemente diz "Ei, aprendi a mover a roda-gigante! Olhem aqui! Eu estou conduzindo-a!" e, em um segundo de distração, ele larga do volante do seu banquinho e estupefato descobre que a roda-gigante funciona por si só. O Self (o Si) está diringindo-a. Você então percebe que não tem mais que fazer nenhum esforço.

Indo tão longe e estando há tanto tempo na roda-gigante, você começa a se perguntar questões fundamentais : Há sâmskaras (impressões mentais) que devem ser suplantadas. Há vásanas (tendências) que devem ser superadas. Há carma individual que deve ser sublimado. Mas... todas essas coisas vêm do ego e da mente e eu não sou nem um nem o outro.
De fato, ego, sâmskara, vásana e carma são instrumentos de aprendizado usado spara levar o estudante à percepção da verdade através de níveis progressivos de entendimento, cuidadosamente graduados.
Você chega à conclusão de que há uma Realidade. Que esta Realidade é imperecível. Ela transforma-se a si própria de maneira criativa. A natureza criativa da Realidade é o que causa a emergência de novas formas. Esta natureza criativa é que deve ser entendida como carma e, de modo algum, pertence a um indivíduo ou grupo. As formas manifestadas emergem e re-emergem incessantemente como resultado deste ímpeto criativo.

A emergência de uma forma é o desaparecimento de uma outra, como uma borboleta que emerge do casulo onde antes havia uma lagarta. Nós chamamos a primeira de "nascimento de uma borboleta" e a segunda "morte de uma lagarta", mas a Realidade imperescível continua a existir e através de todas estas transformações.

Dennis Waite diz "o problema do livre arbítrio ou não dissolve-se na compreensão de que não há ninguém fazendo uma escolha. Os pensamentos vêm e decisões aparentes são tomadas de acordo com o condicionamento particular do complexo corpo-mente. Todas estas coisas ocorrem mas não há ninguém fazendo coisa alguma. É tudo simplesmente movimento da forma sob uma lei determinística de causa e efeito. Um efeito é o pensamento (após o evento) do "Eu escolho fazer isto ou aquilo". E isso é apenas um pensamento surgindo na Consciência.
A Realidade não-dualística se manifesta em seres por todo o Universo e está continuamente mudando, evoluindo, morrendo, renascendo, somente no nível da aparência. A verdade é que tudo sempre é Consciência. Uma analogia pode ser feita como um metal, como ouro derretido, espargido em uma infinidade de formas pelo Universo. Eles são sempre o mesmo ouro. Esse movimento contínuo pertence a Brahman (o espírito supremo Universal). Por causa de nossa ignorância, acreditamos que nós estamos de alguma maneira encarregados da nossas formas locais e destinos mas tudo isso é ilusão. Reconhecer esta verdade é a verdadeira redenção.

Martius de Oliveira

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

007 - Quem nós não somos

Quem nós não somos?

Enquanto nós possuirmos um corpo com algum estado de saúde, nós teremos pensamentos, e nós continuaremos a pensar de uma maneira dualística. Não há como pensar de outra forma. Bom/Ruim, Feliz/Triste, Passado/Futuro, Prazeroso/Não-Prazeroso, e assim por diante. Mas quando você começa a se dar conta deste processo dual de pensamento, você passa a não se sentir mais limitado por ele. Os pensamentos vêm e vão e nós devemos estar presentes e lúcidos no aqui e agora, transcendendo mais do que se condicionando com este banco de memórias mental/emocional.

Ahamkara é uma palavra em Sânscrito para designar apego a uma idéia ou emoção. Literalmente ele significa a expressão "Eu sou isso" ou "Eu sou aquilo". Ainda que estes pensamentos-declarações sejam verdadeiros em um nível relativo, nenhum deles se relaciona com a sua natureza essencial.

Enquanto nós mantivermos a identificação desta forma, acreditando sermos nós o conjunto corpo/mente, este ego ficcional estará atuante. Por isso, os professores de Advaita modernos frequentemente dizem que o buscador jamais encontrará a verdade ou a realização pois o buscador é aquilo que é buscado.

O Advaita tradicional não diferencia as emoções dos pensamentos e percepções. Tudo surge da mente (manas) e então a identificação com os pensamentos e percepções assumem o controle. A cognição é o modo básico da mente. Todas as suas várias funções como pensar, sentir, imaginar, recordar e o próprio ego – são iluminados pela luz desta Consciência, que é a essência do Self e a única realidade. Portanto, todos estes estados são apenas objetos da Consciência.

Se nós permanecermos apegados a um estado emocional ou a uma idéia fixa, ele ficará conosco o tempo todo. A partir de um certo momento, acreditaremos que nós somos o que nós pensamos e o que nós sentimos, o que não tem nada a ver com nossa verdadeira natureza. A metáfora de um ator encenando em um palco é um lembrete útil de que jamais devemos identificar o nosso Ser com os papéis que estamos executando no palco da vida. É difícil remover o ego deste processo. Quando adquirimos entendimento nós começamos a diminuir o ego. Mas os professores de Advaita nos relembram de que para eliminar o ego não devemos usar a nossa intenção para eliminá-lo. Quanto mais crédito você der ao ego tanto mais ele cresce. Shri Atmananda explica-nos que remover o ego é como tentar trazer luz para dentro de um cômodo tentando remover a escuridão. Você nunca terá sucesso. Portanto, simplesmente ignore o ego e tente entender e o entendimento por si só removerá o ego.

Enquanto permanecermos identificados com a mente e os seus pensamentos e emoções estaremos fadados a sofrer as consequências desta visão distorcida da realidade. Möller de la Rouviére nos lembra que "através do processo de identificarmo-nos com as atividades do pensamento, ele não mais servirá à vida humana, mas se tornará ela própria. A identificação com o pensamento significa que nenhuma separação existe entre a mente humana (como pensamento) e a vida humana. Nós devemos abrir mão dos pensamentos e emoções, reconhecendo que eles são tão somente aparições dentro da Consciência e que tão rápido quanto apareceram também irão desaparecer".

Do que eu entendo do que foi exposto acima, não temos como parar de pensar e sentir, o que é impossível, mas podemos reconhecer que nós não somos os nossos pensamentos e emoções e deixá-los partir. Entretanto, a maior parte das pessoas acredita que são o complexo corpo/mente. Nós abraçamos este conceito com tanto ardor em nossa sociedade que nos referimos a "superachievers" e vencedores quando as pessoas pensam e fazem mais do que acreditamos que elas sejam capazes (ou que nós sejamos) e nos referimos a "underachievers" ou perdedores quando elas fazem ou pensam menos do que nós pensamos que elas sejam capazes (ou que nós sejamos). Tudo porque opinamos e agregamos valor ao que nós não somos em realidade – carreira, nacionalidade, religião, histórico acadêmico, etc – aprendendo a agregar valor à vida humana como fariámos a um objeto. Em nossas vidas tivemos sempre a oportunidade de encontrar pessoas de todas as origens, capazes de profundas introspecções sobre a realidade porque estas pessoas utilizam uma faculdade mais refinada da mente denominada em Sânscrito buddhi ("intelecto"), que é sinônimo de uma capacidade de discernir e reconhecer o falso do verdadeiro, o real do irreal, pessoas que nos lêem como um livro aberto e que raramente recebem de nós qualquer validação ou reconhecimento.

Há muito ainda para ler e muito estou me esforçando para entender Advaita, algo tão novo para mim, tão antigo para a humanidade e tão fascinante. Até a próxima !

Martius de Oliveira

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

006 - Nós não somos nossos egos

Quem somos nós ?

Nós, numa sociedade "moderna", nos esforçamos para manter os nossos dentes e cabelos, removermos nossas rugas e linhas de expressão, viver até os cem anos de idade, mesmo que não tenhamos uma razão para viver ou conheçamos algum propósito para a vida. Quase sempre morremos desesperadamente apegados aos nossos corpos decadentes e com medo de "viver" o processo de morte. Nós vivemos e morremos sabendo tão pouco sobre a nossa própria natureza. Se nós tivéssemos uma idéia melhor sobre quem somos nós, talvez pudéssemos enfrentar estes processos sem tanto medo e pesar, talvez até com serenidade e paz interior.

Afinal de contas, quem somos nós? Quem é o ser atrás da mente? As impressões sensoriais dependem dos órgãos sensoriais como os ouvidos, olhos e a pele. As emoções e pensamentos dependem de nossas mentes.

Através do processo de uso de nossas mentes para identificarmo-nos pelo pensamento, nós perdemos pouco a pouco a capacidade de realmente compreendermos quem nós somos e começamos a dizer coisas como Eu sou o meu nome, Eu sou a minha nacionalidade, Eu sou a minha religião, Eu sou meu sexo, Eu sou meu estado matrimonial, Eu sou meu partido político, Eu sou meu time, Eu sou minha idade, Eu sou meu signo no horóscopo, Eu sou a minha raça, Eu sou a minha profissão, etc. No final, nós somos uma composição fragmentada de pensamentos que presumivelmente são "eu" e "não-eu". Ao mesmo tempo em que pensamos que nós podemos nos definir através do "Eu sou os meus pensamentos a meu respeito", somos erroneamente levados a discernir que os outros são "O que nós pensamos a respeito deles".

É aí que o ego começa a se tornar muito evidente. O Ego é chamado de "Ahamkara" em Sânscrito, o que significa o "Processo-do-Eu". Como o Dr. David Frawley coloca: "O ego é um processo de auto-identificação no qual nós associamos nosso ser interior com algum objeto ou qualidade exterior. Através dele nós determinamos que "Eu sou isso" ou "Isso é meu". O ego cria a auto-imagem, ou seja, o conceito "Eu-sou-meu-corpo" o que resulta num senso separado de si. Através desse pensamento, nós nos tornamos isolados e nos sentimos diferentes do resto do mundo e das criaturas em torno de nós. O ego é a função da consciência que identifica a si própria com um objeto, através do qual nós nos sentimos uma unidade com um corpo em particular. Somente o que nós identificamos como sendo nós ou pertencendo a nós, como a nossa família e amigos, podem ser profundamente sentidos e que podemos realmente trazer até à nossa consciência".

O Dr. David Frawley prossegue: "O ego é muito diferente do nosso Ser verdadeiro (Atman), o qual é o puro "Eu-sou" vazio de objetividade. O nosso verdadeiro Ser se coloca acima de todas as formas físicas e condições mentais e é eternamente desapegado, livre e lúcido. O ego surge do "Eu penso" que está por trás de todos os outros pensamentos. Para qualquer pensamento que tenhamos, o pensamento do "eu" ou do "si" deve existir primeiro. O ego introduz o princípio de divisão através do qual a consciência está fragmentada. Ele mantém o aspecto mais subjetivo de nosso ser preso em alguma forma ou qualidade objetiva. O ego é uma função primária da consciência dirigido externamente. Ele traz todo o desenvolvimento exterior da consciência através da mente e do corpo, que são fragmentos do campo de lucidez. "

O ego surge quando nós falhamos em nossa inteligência (Buddhi) seja através do processo de percepção ou de conceitualização do nosso verdadeiro Ser, que é pura lucidez, e o tomamos com o complexo corpo-mente que nada mais é que um objeto.

Quando alguém pensa "Eu refuto minha mente" ou "Eu refuto o que minha mente pensa" é análogo a dizer "Eu refuto meu coração que bate", esperando que a simples declaração faça o coração parar de algum modo. O coração bate e a mente pensa, é só. A prática de respiração do Yoga (pranayama) e as posturas do Yoga (asanas) ajudam-nos a acalmar o corpo e deixá-lo tão quieto quando possível para que a mente não seja perturbada por ele. Quando dizemos ou pensamos "Eu refuto..." estamos dizendo ou pensando "Eu sou o refutador de pensamentos" e pensamos que estamos vivendo em um modo diferente dos outros pois "Eles são não-refutadores de pensamentos". A mente ainda está jogando o jogo do ego do "Eu-processo" e isto mal consegue ser percebido.

A mente é parte do corpo em uma composição bastante complexa. Você não pode parar de pensar com uma mente saudável, mas com bastante treinamento você pode diminuir ou quase parar o fluxo de pensamentos. Mas o que é mais importante saber é que os pensamentos são as nuvens passando e você é o céu azul no fundo.

Martius de Oliveira

terça-feira, 2 de outubro de 2012

005 - Ayurveda - Nutrindo o Complexo Corpo-Mente

Nos dois textos anteriores "Nós não somos nossos corpos" e "Nós não somos nossas mentes" eu somente dei uma idéia de que talvez não sejamos a soma do que nós pensamos ser. Há elaboradas discussões filosóficas sobre estas questões e certamente muito mais pode ser explorado neste sentido. No meu caso, anos se passaram até que eu vagarosamente comecei a dissociar-me do conceito de que eu não era o meu corpo e posteriormente entender que também não era a minha mente ou intelecto. Este foi um processo de desidentificação árduo e recorrente pois volta e meia conseguia ter esse nível de lucidez para depois cair na ilusão de que era novamente corpo e mente. Um aspecto que me marcou bastante foi o estudo da Medicina Tradicional Indiana, conhecida como Ayurveda e seu enorme impacto sobre a compreensão de que corpo e mente fazem parte de uma única unidade material. A principal diferença apontada era de que a mente se constitui num órgão mais sutil, cuja saúde depende de nossa habilidade de extrair elementos nutritivos do ambiente de forma semelhante a que fazemos com o corpo, e que também está sujeita à doença e acúmulo de toxinas. O Ayurveda vê a mente como um campo de idéias e o corpo como um campo de partículas interagindo umas com as outras. Nas palavras do Dr. David Frawley em seu maravilhoso livro "Ayurveda e a mente", ele escreve que a mente possui uma estrutura material, um conjunto de energias e condições observáveis. Isso não é dizer que a mente é um objeto grosseiro como uma pedra ou de que ela se trata de um órgão como um cérebro, ou ainda de que se trata meramente de algo com natureza bioquímica. A mente, segundo ele, não é matéria física, mas é matéria ainda que de natureza mais sutil, etérea e luminosa. Como uma entidade orgânica, a mente possui uma estrutura, um ciclo de nutrição, uma origem e um fim. A mente é investida de um certo "quantum" de energia que produz efeitos variáveis tangíveis.


Em nossa sociedade moderna, estamos muito a par da nutrição de nossos corpos, da necessidade de exercícios, e de todos os problemas relacionados à higiene e a uma dieta pobremente diversificada. Mas será que nós temos esta mesma visão em relação à mente?


O Dr. David Frawley destaca que a mente é organicamente relacionada ao corpo físico. Nós podemos observar isto ao notarmos que as funções da mente mudam com as flutuações físicas, como o nosso comportamento muda com a dieta ou com padrões exercícios e impressões sensoriais. A mente é também como o nosso corpo ou organismo. Ela tem metabolismo, seu modo de nutrição adequado e produtos da digestão destas impressões, assim como disfunções que podem decorrer do seu mal-funcionamento.


Para o bem-estar corporal nós devemos ser capazes de nos oferecer uma dieta nutricional balanceada, o que quer dizer comida e líquidos apropriados, ar limpo e métodos de respiração adequados e breves períodos de desintoxicação dos nossos corpos. A desintoxicação ajuda-nos a livrarmo-nos de elementos orgânicos acumulados que permanecem em nosso organismo. Mas para que a desintoxicação ocorrer nós devemos evitar no melhor de nossas capacidade a ingestão de toxinas.


Mas do que a mente exatamente se alimenta então? De acordo com o Ayurveda, a mente está constantemente trazendo impressões sensoriais de todos os tipos que nos afetam de maneiras adversas. Nós gastamos um tempo considerável no trabalho ou em casa, ingerindo impressões sensoriais provenientes das nossas formas de trabalho, recreação e entretenimento.


Como a medicina Ayurvédica vê corpo e mente como uma só unidade, eu apresentarei um elemento na Yoga chamada em sânscrito de "Pratyahara" que talvez nos ajude a observar a nossa ingestão física e mental apropriadamente. "Prati" é uma preposição que denota abstenção ou afastamento. "Ahara" é uma palavra que significa comida. Assim, Pratyahara pode ser traduzida como "Controle da Fome" e que nós podemos interpretar como significando "abstenção da ingestão de impressões sensoriais". No entanto, Pratyahara não está somente limitada ao aspecto sensorial. No pensamento Yóguico, há na verdade três tipos de "ahara" ou comida. O primeiro tipo de ahara é o próprio alimento que comemos e que nutre nosso corpo físico. O segundo tipo de ahara são as impressões sensoriais que nutrem a mente. O terceiro tipo de ahara são as associações – pessoas, animais selvagens, animais de estimação, plantas, locais na natureza – com os quais nos relacionamos de modo afetivo e que nutrem as nossas almas.


Os mestres de Yoga comparam a disciplina do Pratyahara com uma tartaruga que retrai a cabeça e os membros dentro do seu casco. O casco representa a mente ao passo que os membros e a cabeça representam os sentidos (visão, audição, olfato, paladar e tato). O Pratyahara sensorial também chamado de "Indriya Pratiahara", implica em adquirir consciência e desenvolver discernimento e disciplina na absorção correta de impressões sensoriais. A maior parte de nós têm, hoje em dia, uma percepção bem maior do que seja um hábito dietético adequado mas não exercemos esta mesma discriminação quando o assunto se refere a impressões que nós adquirimos com os nossos sentidos. Nós recebemos estas impressões através da mídia de massas de modo passivo e condescendente e às vezes de forma intempestiva e intrusiva. Quando nós voluntariamente permitimos que isso aconteça, nós permitimos que todos os tipos de energias discordantes invadam a intimidade do nosso campo energético, interagindo com cada célula, cada molécula e partícula sutil que compôem o nosso complexo corpo-mente. Assim, nós comprometemos a nossa própria integridade e equilíbrio de modos que sequer suspeitamos.


A maior parte de nós sofre então uma enorme sobrecarga sensorial sem nem se dar conta disso, resultado de um bombardeio maciço de ondas eletromagnéticas e de microondas artificiais, impressões auditivas e visuais de estações de rádio, telefonia e televisão, telefones celulares, ipods, jornais, revistas, propagandas, computadores e até mesmo a observação de eventos cotidianos em nossas jornadas diárias ao trabalho. Nós até mesmo somos capazes de capturar impressões de eventos prévios no espaço-tempo através da psicometria quando tocamos objetos ou quando nos sintonizamos mentalmente com formas-pensamento no ambiente. À medida que a nossa vigilância diminui neste sentido, nós nos tornamos mais e mais susceptíveis a uma recepção não-seletiva de impressões sensoriais. O somatório de todas estas impressões influencia e afeta adversamente o equilíbrio delicado das muitas camadas de energia de que se compôem os nossos corpos.


A maior fonte de impressões positivas provêm da natureza – as impressões que absorvemos do céu, do chão ou da areia sobre os quais pisamos, as impressões das plantas, arbustos, árvores e de todas as formas de vida, assim como das montanhas, rios, cachoeiras, praias, oceanos e desertos, do sol e das estrelas, criam uma enorme quantidade de impressões visuais, auditivas, gustativas, olfativas e táteis com tremendo potencial de cura. Muito das formas de arte que nos agradam aos sentidos de maneira positiva, assim como as práticas religiosas, orações, preces, mantras, meditações, visualizações e exercícios acrescentam impressões positivas adicionais às pessoas.


A nossa sociedade tão consumista, de um lado estimula o interesse através dos sentidos – cores brilhantes, sons altos, expletivos, sentimentos dramatizados – e nós somos ensinados desde pequenos a nos engajarmos nesse tipo de nutrição sensorial pois eles supostamente nos tornam mais "vivos". O entretenimento se tornou sinônimo de condescendência sensorial sem critério ou discernimento. Vivemos literalmente em um "Império dos Sentidos".


O problema com os sentidos é que, como crianças sem preparo e maturidade, agem de acordo com suas próprias "vontades" e se rebelam contra nós mesmos quando não os satisfazemos prontamente. Isso se deve ao fato, segundo entendo, dos órgãos de sentido terem em sua constituição uma natureza instintiva própria. Se não aprendemos a controlá-los e discipliná-los, eles se apossam de nossa vida fazendo dela uma busca infindável por prazeres hedonísticos onde a busca pelo prazer supera a própria volição da consciência.


Quando falo em controle dos instintos, eu não quero dizer com isso que devamos suprimir ou pior, reprimir os nossos sentidos mas desenvolvermos um maior nível de lucidez e compreensão, entendendo que através da disciplina e da educação de nossos sentidos e da vigilância sobre as impressões que ingerimos, teremos mais instrumentos, dentre vários outros que eu nem mesmo imagino como sejam, que nos levarão a uma vida mais harmoniosa e com contentamento.


Pratyahara é um caminho de duas-vias. Ela envolve não somente a abstenção de comida, impressões e associações inadequadas ao mesmo tempo em que reforça a ingestão de comidas, impressões e associações mais saudáveis.


Agora vou deixá-los com uma questão que também é para mim. Se, de acordo com o Ayurveda, as impressões sensoriais são o alimento de nossas mentes então que tipo de nutrição estamos oferecendo ao nosso corpo? Olhe o mundo em torno do qual você vive. Pode ser que você viva no Rio, Grand Rapids, Manchester, Oslo, Bangkok, Perth, Barcelona, Tripoli ou Adis Abeba. É nesse mundo que você quer viver? Quanto mais desagradável a comida tanto mais sal, açúcar e condimentos acrescentamos aos alimentos de baixo valor nutricional para que eles se tornem mais degustáveis. O mesmo ocorre com as impressões. Quanto pior as impressões que nós absorvemos, tanto mais sobrenaturais, violentas ou viciantes elas têm que ser. Da mesma maneira que o paladar e olfato perdem a sensibilidade assim ocorre com a mente. Nós estamos nos tornando insensíveis à violência, ao sofrimento e à dor alheia e resistentes às mudanças. Nossas mentes estão ficando entorpecidas e os nossos pensamentos cada vez mais perdem clareza e coesão. O resultado são comportamentos brutalizados, atos de frivolidade e insanidade e palavras de raiva, discriminação e intimidação. O controle sensorial está em nossas mãos. É uma responsabilidade pessoal, inadiável e intransferível. A cada momento estamos fazendo escolhas. Já passa da hora de começarmos a pensar e discutir o assunto – Nossas Vidas.


Martius de Oliveira

sexta-feira, 28 de setembro de 2012

004 - Nós não somos nossas mentes

Lembro-me de uma vez, em uma aula de medicina, anos atrás, onde um especialista em ortopedia pediátrica nos explicava sobre o uso da toxina botulínica para o tratamento de paralisia cerebral, uma condição no qual durante o parto, o neonato poderia sofrer hipóxia cerebral de leve à severa (desoxigenação do cérebro) com uma série de sequelas que iam de membros paralisados até profundo comprometimento cognitivo. Através de injeções regulares de toxina botulínica em certos grupos musculares, as articulações se soltava permitindo que os músculos relaxassem e que os procedimentos tanto de higiene pessoal quanto fisioterápicos pudessem ser realizados. O menino, que deveria ter uns cinco anos, entrou na sala sobre uma maca com suas mãos sendo seguras pelas de sua mãe de um modo tão gentil e carinhoso que nos comoveu. De fato, não só as mãos mas todos os quatro membros de seu corpo estavam contraídos. Soubemos também que ele era bilateralmente cego e surdo. Ele não falava e quando vocalizava sua voz lembrava a de um filhotinho de gato chorando, o que os professores nos disseram chamar-se "cri-du-chat". Sua mãe acariava suas mãos e fronte o tempo todo, o que o mantinha calmo mesmo ele tendo a percepção de que estava em um local diferente do que conhecia. Talvez o cheiro de hospital ou o ar-condicionado o fizesse perceber a mudança de ambiente. Como sua mãe havia sido chamada para preencher alguns formulários, ela teve que deixá-lo só por alguns momentos. Ele começou a chorar como um filhote de gatinho. Eu me esgueirei pela cortina e instintivamente segurei suas mãos pálidas nas minhas e delicadamente acariciei seus cabelos. Ele de alguma forma se sentiu protegido e guardado novamente e parou de chorar mas agora eram os meus olhos que estavam com lágrimas. Imaginei o quão frágil ele estava no mundo. Eu pensei que se ele tivesse nascido sem esse problema, ele poderia estar aqui sorrindo e falando com todos. À medida que acariciava as suas mãos ele deixou sair um sorriso espontâneo, com os olhos ainda fechados.


Eu não sabia coisa alguma de Advaita mas eu me lembrei deste instante especial ao ler as linhas do livro que dizia "Seres humanos não são corpos, seres humanos não são mentes, seres humanos não têm definição"...

Martius de Oliveira

quinta-feira, 27 de setembro de 2012

003 - Nós não somos nossos corpos

Há alguns anos, quando estudava medicina e tive os meus primeiros contatos com anatomia, fiquei espantado ao ver na sala de dissecção os corpos das pessoas parcialmente abertas com as vísceras, músculos e estruturas nervosas e vasculares expostas. Minha visão quase que imediatamente se voltou para os rostos e o aspecto externo de cada uma delas. Afinal de contas, eram essas as fronteiras que até então me permitiam reconhecer o aspecto fisionômico de um ser humano. Fiquei chocado. O cheiro penetrante do formol fazia os meus olhos arderem, as peles das pessoas estavam curtidas como couro e todas com tons de marrom que simplesmente não permitiam nem definir quais eram as raças. As cabeças estavam raspadas e o contraste das vísceras expostas quase toldavam a nossa percepção do sexo delas. Vi que um dos cadáveres era uma mulher não por causa da genitália mas porque ao olhar os pés vi que suas unhas estavam cuidadosamente aparadas e pintadas com esmalte rosa que o formol não havia dissolvido.


Mas em todos aqueles corpos havia ainda algo em comum muito mais profundo e mais impressionante que levava todos os alunos a um silêncio respeitoso. Havia uma intraduzível diferença entre entre nós estudantes e instrutores e os corpos silentes e imóveis nas mesas. Não era a evidente percepção fisiológica de morte que nos causava aquela sensação. O que nos chamava a atenção era justamente o que estava em nós mas não estava neles - a furtiva ausência de vida, de ânima, de energia vital – vida que eu podia ver num galho de planta no vaso do corredor, num inseto se esgueirando no canto da sala, ou numa aranha imóvel na teia sobre o forro do teto. Todos nós, seres vivos, por mais diferente que fossêmos em forma e auto-percepção, estávamos impregnados de algo que fazia de todos nós parte de algo muito maior e que me indaguei se não estaria espalhado por todo o Universo.

Muito anos antes de sequer saber que a palavra Advaita existia, tomei conhecimento de que o que quer que nos definisse não era o nosso corpo físico. Nós definitivamente não éramos os corpos físicos que pensávamos que fôssemos. Levei muito anos para entender, depois, de forma similar, que também não éramos os nossos pensamentos e não éramos nossas emoções. Décadas mais tarde, li as palavras de Jean Klein em "Be who you are" – nós estamos completamente inscientes de nossa verdadeira natureza porque identificamos quem nós somos, com os nossos corpos, as nossas emoções e os nossos pensamentos, perdendo assim a visão do nosso centro permanente, que é pura consciência.

Martius de Oliveira

quarta-feira, 26 de setembro de 2012

002 - Introdução ao Advaita

Os textos que se seguirão serão uma tentativa de entender a natureza de quem verdadeiramente somos, assim como de tudo o que está a nossa volta. Ainda assim, não importa o quanto queiramos expressar em palavras o que nós entendemos como verdade, porque ela mesma é, em última instância, incognoscível, incompreensível à mente e portanto indescritível em palavras. O que o Advaita e tantas outras filosofias e religiões se esforçam por fazer é conduzir o leitor a níveis cada vez maiores de apreciação intelectual ou diria até mesmo vibracional da verdade, afeitos às suas tradições ou princípios morais ou religiosos, inclusive utilizando como recurso de aprendizado a refutação ou demolição das bases de racionalização utilizados em etapas anteriores. Afinal de contas, muitas "verdades" que nos eram passadas através das tradições de geração à geração provaram ser em muitos casos nada mais do que mito ou superstição. O Advaita em si tenta nos ajudar a perceber que a verdade está, em última instância, muito além da mente.


Eu aprendi que o Advaita Vedanta é uma filosofia que foi sistematizada na Ìndia em torno do séc. VIII DC por um estudioso de nome Adi Shankara mas, que de fato, a essência desse ensinamento já existe há muito mais tempo, baseada em materiais que havia nos Upanishads. Os Upanishads são parte de textos indianos sagrados denominados Vedas, escritos por volta de 1500 AC. Algumas evidências, no entanto, sugerem que os ensinamentos datam de 6000 AC, em uma linguagem escrita denominada Devanagri, que utilizava caracteres em sânscrito. Os Upanishads são encontrados nas seções finais dos Vedas e são chamados de Vedanta. Eles contém as bases filosóficas das práticas das quais o Advaita deriva. As palavras utilizadas em inglês a partir do livro que estou lendo - "Back to the Truth – 5000 years of Advaita" - do autor Dennis Waite, têm que ser entendidas e adaptadas à língua portuguesa, porém trabalho maior foi o do autor que domina o Advaita, a língua sânscrito e a língua inglesa e que descreve que centenas de palavras em sânscrito não possuem equivalente em nossas línguas porque muitos conceitos da filosofia tradicional não encontram similares no Ocidente. Como ele mesmo coloca: "as palavras são diretamente originárias de uma sociedade que diferia drasticamente da nossa".

Advaita, como já foi dito, é uma filosofia não-dualística, o que significa que na realidade não há "dois" de coisa alguma. A princípio, esse conceito não tem nenhum significado para a maior parte de nós e será este conceito de não-dualidade que tentarei explorar, estudar e fortuitamente aprender nos textos futuros.

O problema maior, de que a realidade não pode ser descrita em qualquer sentido, de certo modo, leva os intervenientes, instrutores ou mestres de Advaita a adotarem uma abordagem oblíqua, utilizando histórias e metáforas, lançando mão de "verdades parciais" como amparos ou suportes para conduzir os passos do principiante ao longo da trilha de entendimento. Muito naturalmente, em decorrência disso, o que pode parecer como uma verdade útil e lógica para uns torna-se uma verdade parcial e sem serventia para outros. Há ainda outros aspectos a serem relevados no estudo do Advaita e praticamente de qualquer assunto. Existem pessoas que apreciam a análise lógica e intelectual, ao passo que outras necessitam de orientação prática e asserções solidárias às suas próprias crenças. O que se torna necessário, nesses casos, é um instrutor cujas palavras entrem em ressonância com algum condicionamento mental prévio do instruído.

Advaita diz respeito essencialmente a descobrirmos quem nós somos. Não visa estabelecer o bem-estar de quem pensamos ser. O que será discutido daqui para frente não visa o auto-aperfeiçoamento (já que o Si é perfeito e completo e é uno com o Absoluto). Em verdade, o mundo e o nosso aparente papel nele pouca relevância têm nas discussões que serão abertas. A linguagem, ainda que seja utilizada com o máximo de cuidado, revelar-se-á elusivamente dualística, pois conceitua, define, destaca, distingue e classifica tanto o que é abstrato quanto o que é material. Mas não há como evitar isto e é por isso que prosseguiremos...

Martius de Oliveira