sábado, 13 de outubro de 2012

017 - Conhecimento e Ignorância


Conhecimento e Ignorância

Mark Nepo, autor do livro “The book of awakening”, menciona como o sol diariamente ilumina tudo à nossa volta embora nós não possamos perceber essa luz até que ela incida sobre um objeto. Sua luz atravessa uma distância enorme, invisível ao longo do espaço até nos darmos conta de sua presença ao iluminar uma folha de grama ou uma gota de água. De forma semelhante a presença de Deus move-se poderosamente entre todos nós, embora só nos demos conta de sua presença quando somos iluminados pela sua luz. Da mesma forma que uma concha sobre a areia só tenha a sua beleza revelada quando é iluminada pela luz do sol nós só nos damos conta da beleza do ser humano ao nosso lado quando um de nós – eu ou a pessoa que estou vendo – é revelada por essa presença.

Conhecermo-nos requer de nós paciência, silêncio, imobilidade e foco sobre o que está abaixo da superfície de nós mesmos. As respostas estão no fundo de nosso ser.

A ignorância sobre a real natureza de quem nós somos é a raiz de todos os nossos problemas pois ela nos faz erroneamente identificarmo-nos com nossos corpos e mentes e que a busca pela satisfação de nossos anseios em um mundo separado e externo.

“Um dia um professor de filosofia, em visita a um Monastério Zen no Japão decide visitar um mestre Zen para lhe pedir explicações a respeito de um ensinamento. O mestre convidou-o para tomar chá. O professor segurou a xícara e o mestre começou a verter o chá até um ponto em que o começou à transbordá-lo sobre o pires e dele para , molhando-o. O copo está cheio diz o mestre, não há como preenchê-lo mais com o que o você deseja. Você é como essa xícara. Como posso contribuir no seu aprendizado se você já se considera repleto do que acredita ser a verdade?

Assim, com este exemplo nos mostra, devemos primeiro esvaziar a mente de todos as nossas pré-concepções e recomeçar novamente a partir do início mas não há a idéia de que a mente deve ser novamente preenchida de idéias. Reflita e teste cada idéia. Reflita sobre novos conceitos na luz do silêncio , expondo-os à discriminação do seu verdadeiro intelecto (buddhi). Existe uma metáfora em que a ignorância é comparada a nuvens que escondem o sol. Nós sabemos que num dia nublado, o sol está totalmente encoberto por nuvens, embora possamos enxergar tudo à nossa volta em virtude da luz sol alcançar os objetos a despeito das nuvens. Na presença da ignorância, falhamos em ver como todas as coisas realmente são mas o fato de poder vermos qualquer coisa é somente devido à presença da Consciência ainda que não seja capazes de apreciá-la.

É a ignorância que é responsável pela nossa desilusão. Ela nos mantém no escuro e sem ela nós estaríamos ”iluminados”. Faz parte da natureza ignorante pessoal não se dar conta de que estamos vivendo a vida em uma incessante busca de alegria e realização, inscientes do grau de ignorância, da falta de reconhecimento de quem realmente somos, reclusos dentro de uma bolha de ilusão. Esse mundo de ilusão é um complexo resultante de nomes e formas que resultam da atividade mental. Essa ignorância (avidya) começa logo que o ego se aproprie das formas e nomes e os tomem como realidades separadas.

O termo em Sânscrito utilizado pela nossa própria condição na Terre é jiva, que significa atman (consciência) identificado com um corpo e uma mente.

 Uma outra metáfora agora para explica avidya e jiva é a seguinte: quem realmente somos (atman) está refletido em uma imagem na superfície de um lago que representa a ignorância (avidya). A imagem no espelho d´água é a imagem do nosso corpo-mente mas não se trata do ser verdadeiro (atman). Da mesma maneira que o reflexo de uma pessoa em um espelho d´água varia conforme o estado da água, calma ou turbulenta, limpa ou barrenta, o reflexo do absoluto varia conforme o estado de avidya sobre o qual está refletido. Somente quando a mente está livre de pré-concepções, calma e transparente como no estado de meditação e que nós poderemos ver as coisas como elas realmente são. Para ser livre da escravidão o homem sábio deve praticar o discernimento entre o que é Ser e Não-Ser. Este discernimento leva o ser humano à um estado completo de contentamento reconhecendo a si como Consciência e Beatitude.

Ainda há muito o que ser dito sobre ignorância e conhecimento, o que será abordado em textos futuros. Um abraço a todos. Shanti!

Martius de Oliveira

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

016 - As oito ramificações do Yoga Integral

As oito ramificações do Yoga Integral

O Yoga integral, também conhecido com Raja Yoga proporciona oito ramificações, cada qual com seu papel necessário para o desenvolvimento.

1 - Yamas ou princípios dhármicos de conduta social adequada são a não-violência (ahimsa), a veracidade (satya), o controle da energia sexual (brahmacharya), o não-furto (asteya) e o desapego (anabhinivesha). Eles servem para estabelecermos uma interação adequada com outros seres e nosso ambiente exterior. O comportamento social adequado é importante para a nossa saúde, bem-estar psicológico e desenvolvimento espiritual.

2 - Nyamas ou princípios dhármicos de comportamento pessoal incluem o contentamento (santosha), a pureza (shaucha), o auto-estudo (svadhyaya), a auto-disciplina (tapas) e a redenção a Deus (Ishvara pranidhana). Esses são princípios de estilo de vida necessários para estabelecer uma prática yóguica pessoal na vida. Eles também são também a base dos regimes de vida ayurvédicos para obter-se equilíbrio. A pureza (shaucha) inclui uma dieta vegetariana e a desintoxicação física. A redenção ao divino é a chave para sustentar todas as práticas que não podem ser atingidas meramente pelo esforço pessoal. A auto-disciplina (tapas), o auto-estudo (svadhyaya) e a redenção ao divino (Ishvara pranidhana) são os fundamentos do Kriya Yoga, o yoga da ação interna que torna a pessoa pronta para o samadhi (absorção).

3 - Asana significa a postura correta que é uma postura em harmonia com nossa consciência interna. Ela busca um postura sentada, comfortável e sustentável que facilite a meditação. As asanas produzem equilíbrio e harmonia ao corpo físico, particularmente ao sistema músculo-esquelético que é o que dá suporte ao corpo físico. As asanas são parte do sistema de tratamento ayurvédico para o corpo físico.

4 - Pranayama significa o controle da respiração mas também a expansão controlada da força vital. Não se trata da supressão da respiração, o que seria prejudicial, mas contatar com fontes superiores de prana ambas dentro e fora do corpo. Pranayamas consistem na realização do aprofundamento e expansão do prana até que ele nos leve a uma condição de paz. Quando o prana está em paz, a força vital, os sentidos, as emoções e a mente são postos em estado de repouso. O pranayama também é um método ayurvédico poderoso de aumentar o vigor e a vitalidade assim como de promover a cura.

5 - Pratyahara que não se trata simplesmente de fecharmos os nossos sentidos mas controlarmos os sentidos, aplicarmos os sentidos corretamente e a habilidade de ir além deles. O modo como usamos os nossos sentidos determina o tipo de energia que absorvemos do mundo externo e que alimenta as nossas mentes. Essa energia tanto pode nos nutrir como nos desestabilizar.

6 - Dharana é o controle da mente, no sentido de direcionamento da atenção de modo correto. É a capacidade de focarmos toda a nossa energia mental para nos determos no que quer que precisemos examinar. Dharana envolve o direcionamento e controle da nossa atenção, como a concentração em certas idéias e objetos em particular. Técnicas comuns de Dharana incluem concentração sobre os chakras e seus elementos governantes. Uma outra técnica consiste em concentrar toda a nossa atenção no coração. Uma terceira técnica consiste em concentrar-se sobre o espaço externo e o espaço interno que habita dentro de nosso coração.

7- Dhyana é meditação, que é a nossa capacidade de sustentar a nossa atenção sem distração. A meditação nos permite espelhar a realidade e objetivamente perceber a verdade das coisas. A meditação pode ser feita sobre um objeto externo, como o oceano, o céu, uma imagem, uma idéia, um princípio. A meditação na verdade não é propriamente uma técnica mas um estado natural de lucidez que requer algum preparo para ser alcançada.

8 – Samadhi, que podemos também chamar de absorção, é a capacidade de se tornar um com o objeto de nossa percepção. É a unidade do percebedor e do que é percebido em alinhamento de percepção, através do qual a natureza da realidade última pode ser claramente conhecida. Samadhi é a nossa capacidade de se unir com as coisas em consciência que no mostre o nosso contentamento e plenitude na vida. Ele nos leva até a natureza Divina subjacente em todas as coisas. Samadhi é a união.

Texto baseado no livro "Yoga e Ayurveda – Self-healing and Self-realization" de David Frawley.

Martius de Oliveira

015 - Ayurveda e Yoga

Yoga e Ayurveda

Yoga e Ayurveda são ciências irmãs que se desenvolveram juntas e que repetidamente influenciaram uma à outra através da história. História esta, que remonta um período muito antigo da civilização, há dezenas de milhares de anos atrás, e que marcou o início do atual ciclo ou era desta civilização. O Yoga e o Ayurveda são partes integrais do grande sistema de conhecimento Védico que diz que todo o universo é parte de um Absoluto e que a chave para o conhecimento cósmico jaz dentro de nossa mente e coração. Comos disciplinas Védicas, yoga e Ayurveda trabalham juntas para potencializar seus benefícios em todos os níveis. O Yoga é a primeira e mais importante ciência Védica de auto-realização. Através de sua prática espiritual, principalmente através da meditação, ela nos leva além da tristeza e ignorância do mundo. Ela nos ensina como nos movermos de nossa identidade corpórea e egocentrada para o nosso Ser imortal que habita dentro de nossos corações. O Yoga proporciona uma chave para o desenvolvimento espiritual, o que no sentido Védico, significa ganhar conhecimento da nossa verdadeira natureza além do tempo-espaço, morte e sofrimento.

O Ayuverda é essencialmente uma ciência de cura-do-Ser objetivando aliviar-nos de nossas doenças do corpo e da mente. Isso não significa que o Ayurveda seja meramente um método de cura pessoal que não requeira ajuda de terapêutas e médicos. De fato, o Ayuverda nos diz que os profissionais das áreas da saúde são indispensáveis dadas as complexidades das doenças e variabilidades dos requerimentos de saúde. Quando o Ayuverda diz que está objetivando a cura-do-Ser e não a cura-de-si-próprio ela está colocando como objetivo a restauração da integridade do Ser que existe dentro de cada um de nós, e isso inclui a cura espiritual. O ayuverda trabalha com o conceito de tipos constitucionais, que serão estudados mais adiante, entretanto o lado físico do tratamento ayurvédico com dietas e ervas é somente parte do sistema. O seu aspecto interior, curar o corpo sútil e a mente (o que inclui a prática de yoga e meditação) talvez seja a outra parte ainda mais importante. As ramificações do yoga serão visto com mais detalhe no próximo texto. Abraços.

Martius de Oliveira

014 - Advaita e Ayurveda

Advaita e Ayurveda
Em diversos textos falamos sobre a mente e o corpo. Embora a nossa real natureza não seja nem um nem outro, é muito difícil agirmos com discernimento para conhecermos a nossa real natureza se apresentarmos algum tipo de distúrbio físico ou mental.
Na medicina Ayurvédica, as doenças físicas ocorrem principalmente devido a fatores externos como hábitos de dieta inadequados ou exposição a patógenos. As doenças mentais, por outro lado, surge principalmente a fatores internos como a utilização inadequada dos sentidos e acumulação de emoções negativas. Na maior parte das vezes, no entanto, as doenças físicas e psicológicas surgem juntas, superpostas, sendo raro que uma ocorra sem a outra.  No texto abaixo, extraído do livro “Ayurveda and the Mind – The healing of the Consciousness” do Dr. David Frawley, ele comenta sobre a natureza das doenças físicas e mentais e como umas interferem nas outras.
“Algumas doenças, como infecções agudas, têm quase exclusivamente causas físicas, podendo ser tratadas no nível puramente físico. No entanto, a maior parte das doenças têm causas psicológicas e, na média, todas as doenças persistentes ou crônicas têm efeitos psicológicos. A doença física perturba as emoções e enfraquece os sentidos. Distúrbios psicológicos produzem consequências físicas. Eles nos conduzem a desequilíbrios alimentares, desgastam o coração e os nervos, e por fim enfraquecem o corpo físico.
No mundo desenvolvido moderno, os nossos problemas são principalmente psicológicos. Nós temos uma nutrição adequada, abrigo e vestimentas, que evitam com que adquiramos a maior parte das doenças físicas. Ainda assim, embora a maior parte de nós não tenha problemas físicos sérios, nós sofremos com perturbações psicológicas. Estas perturbações podem se manifestar como sentimentos de solidão, não sermos amados, apreciados ou validados, ou ainda, sofrermos de ansiedade, stress ou raiva. Isso pode levar a um enfraquecimento da nossa energia física e impedir-nos de fazer o que realmente desejamos.
O nosso próprio estilo de vida gera infelicidade. Nós vivemos em uma cultura ativa e turbulenta na qual há pouca paz ou contentamento. Nós perturbamos as raízes orgânicas da vida, que são uma boa alimentação, água e ar de qualidade e uma família para obtermos suporte. Vivemos em um mundo artificial dominado por uma paisagem urbana e mídia de massas, onde há muito pouco para nutrir a alma. Nós estamos sempre desejando novas coisas e raramente estamos contentes com o que possuímos. Corremos de um estímulo para outro, raramente observando que o processo de nossas vidas não está nos levando a lugar algum. Nossas vidas são padrões de acumulações na qual nós nunca estamos calmos ou descansados. A nossa medicina funciona mais como um band-aid  para nos mantermos seguindo em nossos estilos de vida errôneos e raramente se dirigem para as raízes comportamentais de nossos problemas. Tomamos uma pílula esperando que os nossos problemas se vão, sem reconhecer que este possa ser apenas um sintoma de nossa vida desequilibrada, como uma luz de alerta que nos avisa para termos mais diligência.
O Ayurveda, por outro lado, nos ensina a nos harmonizarmos com a natureza, a desenvolvermos simplicidade e contentamento como chaves para o nosso bem-estar. Ele nos mostra como vivermos em um estado de equilíbrio, onde a realização é um estado de ser e não de vir a se tornar alguém. Ele nos conecta com nossas fontes de criatividade e alegria dentro do nosso consciente, de forma a que nós possamos permanentemente sobrepujar nossos problemas psicológicos.  O Ayurveda proporciona uma solução real para os nossos problemas de saúde, que é retornar para a Unidade com o Universo e o Divino dentro de nós. E isso requer mudanças em como vivemos, pensamos e percebemos.“
Dr. David Frawley

013 - Os princípios de Ayurveda


As três grandes forças cósmicas no Ayurveda

De acordo com os antigos textos védicos, há três forças essenciais em existência. A primeira força é chamada Prana, um princípio de energia que produz movimento, velocidade e animação. Prana significa a respiração primordial ou força vital. Toda a energia segue os movimentos de inalação e exalação, como em um movimento de contração e expansão, de cheia e vazante. Por trás de toda energia há consciência, e esta energia se movimenta de forma espontânea em um movimento de pura beleza e harmonia. A segunda força é o princípio de radiância ou luz chamada Jyoti. A energia quando se movimenta se transforma e produz luz e calor. A terceira força é o princípio de coesão, consistência e desenvolvimento da forma. Há uma afinidade entre estas forças no sentido de um único ritmo, de uma unidade comum. Essa força coesiva é chamada Prema e é o poder do amor. O amor é uma força real que mantêm tudo coeso e garante a continuidade e sustentação de todas as criaturas em suas vidas e lucidez. Estas três forças – Prana, Jyoti e Prema - Vida, Luz e Amor – relacionam-se aos três elementos ar (vento), fogo (sol) e água (chuva).

Os três doshas

O Ayuverda reconhece as três-forças primárias no corpo, também chamados de humores biológicos – Vata, Pitta e Kapha – correspondentes aos elementos, ar, fogo e água, respectivamente. Como forças móveis e ativas, eles tanto determinam o crescimento quanto a degenerescência. Em Ayurveda a palavra humor é denominada dosha. No ocidente usamos o termo humor para descrever o estado emocional das pessoas mas historicamente a palavra humor era bastante usada em ciências médicas na Grécia (medicina humoral) para designar fluidos corporais (bile amarela, bile negra, sangue e fleuma) que influenciavam na saúde e no temperamento das pessoas. Em Ayurveda dosha significa aquilo que escurece e produz degradação. Quanto os doshas entram em desequilíbrio, eles se tornam as forças causativas que produzem as doenças.

Vata é o humor biológico relacionado ao ar ou vento. Vata significa "aquilo que move coisas" e é a força humoral que governa o equilíbrio mental e sensorial e a orientação, adaptabilidade mental e compreensão.

Pitta é o humor biológico corresponde ao fogo, e é também traduzido com bile. O seu significado é "aquilo que digere as coisas". O dosha Pitta é responsável pelas transformações química e metabólicas no corpo e responde também pela capacidade de digerir mentalmente impressões sensoriais, assim como governa a nossa capacidade de perceber a realidade e entender as coisas como elas são.

Kapha é o humor biológico representado pela água e é também traduzido como fleuma. Kapha significa aquilos que mantém as coisas unidas e coesas. O dosha Kapha provê as substâncias e dá suporte dando constituição ao tecidos corporais. Ela provê suporte emocional à vida e está relacionada aos traços positivos emocionais de amor, compaixão, paciência e perdão.

O próximo texto será sobre Ayurveda e tem relação com o que conversamos sobre Advaita pois é sobre a medicina do corpo e mente. Até breve!

Martius de Oliveira

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

012 - Alegria

Alegria

A alegria é o nosso estado natural. O que vem e vai é o nosso ego. Nós pensamos que somos infelizes, porque nós esquecemos a nossa natureza essencial, que é a beatitude. Mesmo um imperador, a despeito de sua riqueza e poder, frequentemente sofre de uma mente perturbada. O sábio, mesmo aquele não conhece de onde virá sua próxima refeição, está sempre feliz.


Por que desejamos objetos? Evidentemente, a mente deseja sentir a falta ou a posse de algo que ela quer. O objeto, uma vez obtido, preenche esse desejo de querer. Quando um objeto é obtido com sucesso, a mente sente-se realizada, em um estado de alegria. Mas o que é realmente alegria? À medida que a alegria preenche a mente desejosa, de onde vem essa alegria? Habitualmente, já que nossas mentes desejam objetos, nós pensamos que a alegria é algo que possa ser encontrada nesses objetos. Mas muito obviamente isto não é verdade. Um objeto pode nos trazer ou não alegria, dependendo da hora e da ocasião. Mas se ela não pode ser encontrada de verdade nos objetos aonde a alegria pode ser encontrada? Será que é na mente que ela reside? Não, não pode ser porque se assim fosse nós estaríamos sempre em estado de alegria e nesse caso jamais veríamos a nossa mente insatisfeita. Se a felicidade estivesse dentro da mente então nem teríamos porque desejar. Assim pode-se ver que a alegria não é algo que se encontra fora mas atualmente é um aspecto da nossa natureza que por engano ignoramos.


A alegria é a própria essência da nossa natureza; alegria e o Ser não são diferentes. Não há alegria nos objetos do mundo. Nós imaginos, por causa de nossa ignorância, que podemos extrair alegria de objetos. Quando a nossa mente se aventura no mundo externo, nós experimentamos desventura. Na verdade, quando os seus desejos são satisfeitos, a mente retorna novamente ao seu canto e sentimos a alegria que nós somos.

No ponto de júbilo você entra na Natureza real. Você foi além do seu ego. Voê é como que lançado na Natureza real e você está lá sozinho e brilhando na sua própria Glória. Isso é o que se deve entender por Alegria.


Quando estamos verdadeiramente alegres não há pensamentos – a mente e o ego entram em suspensão e Ananda, palavra em Sânscrito que pode ser traduzida por "Verdadeira Felicidade".


Ao olhar uma cereja em uma cerejeira, se você quiser saber como identificá-la, basta olhar apenas uma cereja, prová-la, e você saberá o sabor e textura de todas as frutas no pé. O único propósito sensato de uma pessoa deve ser descobrir a natureza de si própria, o seu sabor, a sua textura, e as suas cores. Todo o propósito da existência humana é conhecer a sua própria essência. É provar-se a si própria para conhecer e discernir que todos os frutos da árvore são uma única Unidade vindo de uma mesma Fonte.


Martius de Oliveira

terça-feira, 9 de outubro de 2012

011 - Ainda sobre significado, propósito e alegria

Para quase toda a humanidade a morte é considerada como o marco final de suas vidas, muito naturalmente, já que cessa a vida física. No entanto do ponto-de-vista cultural ela marca também a data-limite na qual nossas ambições devem ter sido alcançadas. Os seres humanos sabem que são mortais e que esta percepção do destino leva muitas pessoas a se refugiarem na crença de sua vida após a existência e outras a um sentimento de desespero angustiante com sua alienação. A maior parte das pessoas oscila entre estes dois pensamentos e geralmente terão medo de tudo que possa parecer levá-las à morte mais rapidamente, como a pobreza, a solidão ou a doença. Muitas outras tentarão forjar um salvo-conduto contra a morte, procurando adiá-la com prosperidade, segurança, manutenção da juventude, segurança física, poder e reconhecimento social. Quanto mais as pessoas têm medo do abismo, do nada existencial tanto mais precisam adquirir tudo à sua volta. O medo, a ganância e o ódio são características de uma humanidade que vive em desespero. É claro que esta atitude na vida não vai preveni-las de morrerem, mas com certeza vai macular cada momento de suas vidas, até mesmo os momentos mais felizes com o desconforto da sombra da morte.

Para quem acredita em Advaita, a morte do corpo físico não apresenta real importância. É somente no nível do mundo fenomenal que ela tem algum significado. Quem nós somos em realidade é ilimitado e sendo assim nós nunca conseguiremos satisfação em um mundo limitado. A obtenção da felicidade na busca de valores mundanos tradicionais, até mesmo sendo afortunados obtendo-os ao final da vida, ainda leva-nos à insatisfação. É somente através da percepção de nossa verdadeira natureza que podemos atingir o contentamento eterno que estamos sempre vaidosamente procurando ignorantes do fato de quem já somos.

De acordo com o Advaita, a causa do mal recai sobre a nossa ignorância. Ninguém perpetra uma maldade à plena luz do conhecimento, ele/ela simplesmente não consegue. O assassino, o perdulário, o corrupto, o ladrão, estão sendo sempre impelidos pelo mesmo motivo – preencher uma necessidade criada devido a uma aparente privação do seu próprio ser. Esta privação deve ser entendida como um perda de completude ou plenitude. O Ser é infinito e preenchido (purna). Nada falta. É a ignorância (avidya) que gera a falsa noção de limitação. A escravidão à essa noção de limitação é que alguém tenta ganhar algo que pensa que lhe falta. Ela perde a beatitude inata e daí surge o desejo por alegria e prazer (kama). A pessoa se acha presa a um corpo e tenta compensar esta limitação através da aquisição de objetos, prosperidade, nome e posição (artha). Assim, kama e artha se tornam os objetivos básicos de um ser corpóreo.

Em Advaita, Bom e Mal são termos que se relacionam aos padrões particulares morais de uma dada sociedade e às idéias que os indivíduos tem a respeito destes conceitos. Tudo está no reino das aparências e não se relacionam a realidade não-dual por trás dos nomes e formas. Uma vez perguntaram: "Por que Deus permite o mal?". Esta pergunta é tão absurda quanto "Por que Deus permite o bem?", assim como é absurdo perguntar "Por que a água permite a enchente?", "Por que o sol permite o incêndio?", "Por que a Terra permite o terremoto?" . "Você pragueja ou abençoa o fogo?", "Você pragueja ou abençoa a água?", "Você pragueja ou abençoa a terra?". Brahman em sânscrito significa o "Absoluto", "Deus", "O Ser Universal". Brahman não é bondoso no sentido em que Cristo foi bondoso. A vida de Jesus Cristo expressou a luz da Realidade refletida em um mundo relativo. A Realidade em si própria está além de todos os fenômenos, até mesmo dos mais nobres. A Realidade está além da pureza, da beleza, da alegria, da glória ou do sucesso. Ela só pode ser descrita como boa se nós quisermos dizer que a consciência absoluta é conhecimento absoluto, e o conhecimento absoluto é alegria absoluta "Ananda".

Roy Whenary diz "que o ego, o "Eu", jamais consegue ser feliz. Os seus apegos emocionais, identificação com objetos de felicidade, resistência e negatividade, tudo isso nos priva da alegria. Na tradição Hindu "nirvikalpa samadhi" pode ser traduzida como "alegria sem objeto", o que descreve bem o que viríamos a sentir através do vazio silencioso de nossa verdadeira natureza. É uma alegria espontânea. É o nosso estado natural de ser, nosso direito de nascença, que não é particularmente dependente de objetos. Buscar o sentimento de cada momento de nossas vidas eventualmente nos leva a transormação no modo como vemos e experienciamos a vida. A mente não pode fazer isso sozinha. Nós temos que mergulhar em nosso corpo, em nosso sentimento e então talvez nós nos esbarremos com essa alegria que é nosso direito de nascença. Quando encontrarmos clareza na nossa verdadeira natureza, todos os obstáculos à alegria tombarão, revelando uma alegria interior que, como uma flor, está pronta a responder à luz".

Martius de Oliveira